O plano de acabar com a FEMA existiu, foi levado a sério dentro da agência e não saiu do papel. Quem conta é David Richardson, que comandou a agência interinamente por boa parte de 2025 e falou à NPR em reportagem publicada nesta quinta-feira. "There was resentment towards FEMA. The president's intent was to shut it down", disse ele, em tradução livre: havia ressentimento contra a FEMA, e a intenção do presidente era fechá-la.
A agência continua de pé. O que sobrou do episódio, porém, chega ao contribuinte na forma menos visível: quadro de pessoal desfalcado, reembolso de desastre atrasado e um fundo de socorro com rombo projetado.
O corte que não saiu do papel
Richardson chegou à FEMA em maio de 2025 com um alvo numérico. A sede da agência tinha cerca de 6 mil funcionários e deveria terminar novembro daquele ano com no máximo 2 mil, segundo o relato que ele deu à NPR. O corte nunca foi executado.
Em julho de 2025, conforme a mesma reportagem, um dirigente do Departamento de Segurança Interna comunicou a Richardson que o rumo havia mudado: quem definiria o futuro da FEMA passaria a ser o conselho de reforma criado pelo presidente, não o administrador interino. Richardson deixou o cargo no fim de 2025.
Dois pesquisadores ouvidos pela NPR resumiram o saldo. Andrew Rumbach, do Urban Institute, avaliou que o país assistiu a uma tentativa mal aconselhada de reduzir o tamanho da FEMA. Deanne Criswell, que dirigiu a agência no governo anterior, foi mais seca: não dá para cortar de forma indiscriminada, porque quem paga a conta é a vítima do desastre.
Por que o fechamento travou
A resistência veio de dentro do próprio campo do governo. Segundo a NPR, estados governados por republicanos e representados no conselho de reforma, como Texas e Flórida, discutiram melhorias na agência sem defender a extinção dela. Muitas comunidades dependem do dinheiro federal para se reerguer depois de furacão, enchente ou incêndio, e essa dependência atravessa o mapa partidário.
O clima interno mudou. Richardson descreveu a administração como quem entrou num modo de conviver sem confronto com a agência. O medo de extinção diminuiu entre os servidores, mas a NPR registra que a FEMA segue com falta de pessoal e com pagamentos de recuperação atrasados, e que um relatório recente do escritório de fiscalização do Congresso, o GAO, levantou dúvidas sobre a capacidade da agência.
Quem comanda a agência agora
Cameron Hamilton assumiu o posto. O Senado aprovou o nome dele em 7 de agosto, dentro de um pacote de indicações, e ele tomou posse em 10 de agosto, segundo comunicado da própria FEMA e registro da National Association of Counties (NACo), entidade que representa os condados americanos.
Hamilton já havia respondido interinamente pela agência entre janeiro e maio de 2025. É ex-integrante das forças especiais da Marinha, atuou como especialista em gestão de emergências no Departamento de Estado e dirigiu a área de atendimento médico de emergência do Departamento de Segurança Interna, com padrões que alcançavam mais de 4 mil socorristas.
No comunicado de posse, ele definiu a meta: "The American people deserve a FEMA that is not bogged down with bureaucracy, but one that is focused on preparing and supporting state, local, tribal and territorial governments" — o povo americano merece uma FEMA que não esteja atolada em burocracia, e sim concentrada em preparar e apoiar governos estaduais, locais, tribais e territoriais. Na sabatina, disse pretender uma agência objetiva, justa, razoável e consistente na aplicação da lei.
US$ 11 bilhões que não chegaram aos estados
O número mais concreto do desarranjo está no caixa. A FEMA reteve cerca de US$ 11 bilhões em reembolsos de desastre previstos para 45 estados e empurrou os pagamentos do ano fiscal de 2025 para o de 2026, segundo levantamento da NACo.
A entidade aponta duas causas. A primeira é o passivo remanescente da pandemia: a agência já gastou perto de US$ 140 bilhões na resposta à covid-19, muito acima do previsto, e precisa de aporte adicional do Congresso para fechar as obrigações que sobraram. A segunda é o rombo de bilhões projetado no Fundo de Socorro a Desastres, o DRF. Para preservar o que resta em caixa, a FEMA reduziu o ritmo de novos pagamentos e ampliou a análise das despesas pendentes.
A NACo alerta que uma demora prolongada pode afetar a capacidade dos governos locais de responder a desastres e de se recuperar deles nos próximos meses. São os condados que adiantam o dinheiro da remoção de entulho, do abrigo temporário e do conserto de estrada, e depois esperam o reembolso federal.
O que o conselho de reforma recomendou
O conselho de reforma da FEMA entregou suas recomendações ainda em 2026, com a linha de transferir mais responsabilidade aos estados, informa a NPR.
Na leitura da NACo, se essas recomendações forem adotadas, os condados podem enfrentar limiares de custo mais altos para acionar a ajuda federal, menos presença de equipes federais no local do desastre e mais expectativa de que a recuperação saia do orçamento local. Condados pequenos e rurais aparecem como os mais vulneráveis a essa mudança. A entidade pede apoio ao projeto bipartidário H.R. 4669, que busca simplificar o pedido de assistência e reforçar a articulação entre os níveis de governo.
Por que isso alcança quem mora aqui
A FEMA entra na vida do imigrante nos dias ruins: quando a enchente invade a garagem ou quando a cidade precisa reabrir a escola depois da tempestade. O dinheiro dessa reabertura costuma vir do reembolso federal que hoje está represado.
Enquanto a fila de reembolso não anda, o custo fica com o município e o condado, que decidem o que adiar. Acompanhar o tamanho do Fundo de Socorro a Desastres e o ritmo dos pagamentos é, para o morador, uma forma de antecipar quanto tempo a recuperação vai levar na próxima vez.
Onde confirmar?
- NPR, "Inside the failed mission to eliminate FEMA" (03/09/2026): text.npr.org/nx-s1-5943052
- FEMA, "Cameron Hamilton Confirmed as New FEMA Administrator" (10/08/2026): fema.gov/press-release/20260810/cameron-hamilton-confirmed-new-fema-administrator
- National Association of Counties, "FEMA delays $11 billion in state disaster reimbursements": naco.org/news/fema-delays-11-billion-state-disaster-reimbursements
- National Association of Counties, "Senate Confirms New FEMA Administrator Cameron Hamilton": naco.org/news/senate-confirms-new-fema-administrator-cameron-hamilton
Comentários
Faça login para comentar
EntrarSeja o primeiro a comentar!