Os americanos relataram à Comissão Federal de Comércio a perda de US$ 15,9 bilhões com fraudes em 2025, a partir de cerca de 3 milhões de queixas — o maior valor já registrado e um salto de mais de US$ 3 bilhões sobre o ano anterior.
Dentro desse total, os golpes de falsa identidade foram os mais denunciados pelo nono ano seguido, com US$ 3,5 bilhões em prejuízo, alta de quase 20%. Quase uma em cada três queixas de fraude cai nessa categoria.
O falso agente do governo
O recorte que mais interessa à comunidade imigrante: as vítimas relataram cerca de US$ 920 milhões perdidos para golpistas que se passavam por órgãos do governo, contra US$ 789 milhões no ano anterior.
O roteiro é conhecido. Alguém liga dizendo ser de um órgão federal, afirma que há um problema no processo migratório, no número de seguro social ou nos impostos, e diz que a prisão ou a deportação é iminente. A saída oferecida é o pagamento imediato de uma multa.
Há um sinal que desmascara todos eles, sem exceção: nenhum órgão do governo americano cobra multa por telefone exigindo cartão-presente, transferência instantânea, criptomoeda ou dinheiro vivo entregue a um portador. Nenhum. O pedido dessa forma de pagamento é, por si só, a prova do golpe.
Órgão de governo também não liga ameaçando prender quem não pagar na hora. Comunicação oficial de imigração chega por carta, no endereço cadastrado.
O que a inteligência artificial mudou
O FBI contabilizou US$ 893 milhões perdidos em 22.364 queixas ligadas a golpes com uso de inteligência artificial em 2025. A maior fatia foi de fraude com falso investimento, US$ 632 milhões, seguida por comprometimento de e-mail corporativo, falso suporte técnico, golpe romântico e fraude em falsa oferta de emprego.
A tecnologia que fez a diferença foi a clonagem de voz. Com poucos segundos de áudio — tirados de um vídeo em rede social, de um áudio de aplicativo de mensagem, de um recado de caixa postal — dá para gerar uma fala convincente na voz de qualquer pessoa.
Um levantamento setorial apontou que uma em cada dez pessoas nos Estados Unidos já passou por um golpe de voz clonada, e que 35% não se sentem capazes de identificar uma falsificação desse tipo.
O golpe da emergência familiar
É a aplicação mais cruel, e a que mais atinge quem tem parentes longe. A vítima recebe uma ligação com a voz do filho, do neto ou do irmão dizendo que sofreu um acidente, foi preso ou está sendo mantido em algum lugar, e que precisa de dinheiro agora.
A pressa é parte do método: o golpista trabalha para que não haja tempo de conferir.
A defesa é combinar uma palavra de segurança com a família. Uma palavra ou frase que só as pessoas de casa conheçam, que não esteja em nenhuma rede social, e que possa ser pedida numa ligação suspeita. Voz clonada não sabe a palavra.
A segunda defesa é desligar e ligar de volta para o número que a pessoa já tem salvo. Não para o número que apareceu na tela — identificador de chamada é trivial de falsificar.
Três hábitos que barram a maioria dos casos
Desconfiar de pressa. Golpe precisa de urgência para funcionar; decisão financeira legítima aceita esperar até amanhã.
Nunca pagar em cartão-presente. É a forma de pagamento preferida dos golpistas porque é irreversível e anônima. Nenhuma cobrança legítima é feita assim.
Reduzir a exposição da própria voz e da rotina em perfis públicos. Áudio público é matéria-prima para clonagem.
O golpe da falsa oferta de emprego
Menos comentado e muito comum entre quem chegou há pouco. O anúncio promete trabalho com salário acima do mercado, sem exigir experiência, e o contato acontece só por aplicativo de mensagem.
Em algum momento pedem pagamento adiantado — taxa de processamento, uniforme, equipamento, curso obrigatório — ou pedem dados bancários para o suposto depósito do salário. Empregador legítimo não cobra do candidato para contratar.
Uma variação usa cheque: mandam um cheque de valor alto, pedem que a pessoa deposite e devolva parte por transferência. O cheque é falso e volta dias depois, quando o dinheiro já saiu da conta de quem caiu.
O que fazer se já caiu
Rapidez importa mais que constrangimento, e vergonha é justamente o que os golpistas contam para que a vítima demore.
Ligar imediatamente para o banco ou para a operadora do cartão e pedir bloqueio e contestação. Transferência instantânea é a mais difícil de reverter, mas cartão de crédito tem proteção de contestação, e vale acionar sempre.
Trocar as senhas das contas envolvidas e ativar verificação em duas etapas onde ainda não estiver ligada.
Guardar tudo: número de telefone que ligou, mensagens, comprovantes, número de protocolo. É o material da denúncia.
E avisar a família e os conhecidos. Quadrilha que acertou uma vez costuma voltar ao mesmo círculo — o aviso rápido é o que corta a sequência.
Onde denunciar
A Comissão Federal de Comércio recebe denúncia de fraude em português e não pergunta situação migratória. O centro de queixas de crimes na internet do FBI também recebe relato, e é por essas bases que os órgãos mapeiam as quadrilhas.
Denunciar tem valor mesmo quando o dinheiro não volta: é o que produz o alerta que protege o vizinho. E vale avisar o banco imediatamente — em alguns tipos de transferência ainda há janela para bloquear.
Comentários
Faça login para comentar
EntrarSeja o primeiro a comentar!