O dólar à vista fechou esta quarta-feira (21) cotado a R$ 5,0279, alta de 0,18%, e interrompeu uma sequência de três quedas seguidas frente ao real. A quatro dias do segundo turno da eleição presidencial entre Flávio Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), as pesquisas passaram a ditar o rumo do câmbio, e o efeito chega direto a quem manda dinheiro dos Estados Unidos para a família no Brasil.
Pela cotação comercial, US$ 1.000 equivaliam a R$ 5.027,90 no fechamento desta quarta. No último pregão antes do primeiro turno, na sexta-feira, 2 de outubro, o dólar terminou o dia a R$ 5,2165, e a mesma quantia valia R$ 5.216,50. A diferença é de R$ 188,60, ou 3,6% a menos em reais para cada US$ 1.000 convertidos. O cálculo é do Brazuca News, feito a partir das cotações de fechamento publicadas pela imprensa nas duas datas.
Pesquisa apertada segurou o dólar acima de R$ 5
A alta desta quarta veio depois da divulgação da segunda pesquisa Quaest feita após o primeiro turno. O levantamento mostrou Flávio com 45% e Lula com 44% das intenções de voto, empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, segundo o Money Times. Na rodada anterior do instituto, Flávio tinha 46%, e Lula já aparecia com 44%, de acordo com o Jornal do Comércio.
A máxima do dia foi R$ 5,0433, no início da tarde. Mesmo com o avanço, a moeda americana acumula queda de 0,90% na semana, de 2,84% em outubro e de 8,40% em 2026, segundo o Jornal do Comércio. O movimento local destoou do exterior: por volta das 17h de Brasília, o índice DXY, que compara o dólar a uma cesta de seis moedas fortes, operava em leve baixa de 0,02%, informou o Money Times.
"A incerteza eleitoral, com a disputa bastante acirrada entre Flávio e Lula, elevou a busca por proteção no câmbio", disse ao Money Times Emerson Junior, head de câmbio e contas internacionais da Convexa Investimentos. Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, afirmou ao mesmo site que o ambiente externo amenizou a pressão, mas que o câmbio segue "sensível ao noticiário eleitoral".
Segundo o Money Times, Flávio é visto pelo mercado como o candidato mais alinhado às expectativas dos investidores, pela possibilidade de ajuste fiscal e de cortes mais agressivos da Selic. O economista Fabrizio Velloni resumiu ao Jornal do Comércio o efeito das sondagens sobre a cotação: "O mercado estava mais otimista nos últimos dias com a possibilidade de alternância de poder, mas as pesquisas, em geral, estão vindo muito apertadas. Isso segura o dólar acima de R$ 5,00".
Na véspera, terça-feira (20), o dólar comercial havia caído 0,58%, para R$ 5,019, no terceiro pregão seguido de baixa. Durante aquela sessão, a moeda chegou a se aproximar de R$ 5,00, informou a Agência Brasil, que atribuiu o recuo à desvalorização do dólar no mercado internacional e à perspectiva de entrada de capital estrangeiro na bolsa, com os investidores atentos à disputa presidencial.
O Banco Central informou nesta quarta que o fluxo cambial total da semana de 13 a 16 de outubro ficou positivo em US$ 1,933 bilhão, com entrada líquida de US$ 1,889 bilhão pelo comércio exterior. Na primeira semana depois do primeiro turno, de 5 a 9 de outubro, a entrada líquida pelo canal financeiro chegou a US$ 4,127 bilhões, segundo o Jornal do Comércio.
Analista vê oscilação maior depois da votação
Guilherme Marques, diretor global de derivativos e câmbio da Hedgepoint Global Markets, classificou o comportamento recente do dólar como "lateralizado", com a moeda rodando pouco acima de R$ 5,00. Ao Jornal do Comércio, ele afirmou que as medidas de volatilidade implícita, indicador que mede a oscilação esperada pelo mercado, estão nos maiores níveis desde a crise financeira de 2008.
"Podemos ver no pós-eleição uma variação de 2,5% no câmbio, para cima ou para baixo, ou seja, algo entre 10 e 12 centavos", disse Marques. Ele não vê disparada do dólar em caso de reeleição de Lula. "A manutenção do atual governo já está um pouco precificada. Em caso de troca, pode ter uma empolgação maior que jogue o dólar mais para baixo."
Na conta de quem envia dinheiro, uma variação de 2,5% sobre os R$ 5.027,90 desta quarta equivale a cerca de R$ 126 a mais ou a menos para cada US$ 1.000. O número é uma simulação do Brazuca News a partir da estimativa do analista, e não uma previsão.
Eduardo Velho, economista-chefe da Bravonte Capital, atribuiu a alta desta quarta a "um ajuste técnico no dólar devido à incerteza eleitoral após a pesquisa da Quaest". Segundo ele, essa incerteza é contrabalançada por outras sondagens que apontam, em média, vantagem de dois pontos percentuais para a candidatura da oposição, como a Meio/Ideia, que traz Flávio com 48% e Lula com 46%.
No Relatório Focus divulgado na segunda-feira (19), os economistas consultados pelo Banco Central reduziram a projeção para o dólar no fim de 2026 de R$ 5,15 para R$ 5,13, informou o InfoMoney. Para o fim de 2027, a estimativa caiu de R$ 5,26 para R$ 5,22. As duas projeções estão acima da cotação de fechamento desta quarta.
Quanto os impostos tiram da remessa
Além do câmbio, dois tributos podem encolher o valor que chega ao Brasil. Nos Estados Unidos, desde 1º de janeiro de 2026 vale um imposto federal de 1% sobre remessas enviadas ao exterior quando o remetente entrega à empresa de remessa dinheiro em espécie, money order, cashier's check ou outro instrumento físico parecido, segundo o IRS, a Receita federal americana. A obrigação de pagar é do remetente, e a empresa de remessa tem de cobrar o valor e repassá-lo ao governo.
Pela alíquota de 1%, uma remessa de US$ 1.000 paga em dinheiro vivo gera US$ 10 de imposto. Em abril, o Tesouro e o IRS publicaram uma proposta de regulamento para detalhar a cobrança, inclusive o valor sobre o qual o imposto incide e a lista completa de instrumentos físicos que disparam o tributo.
No Brasil, a alíquota geral do IOF nas operações de câmbio de entrada de recursos do exterior é de 0,38%, conforme o artigo 15-B do Regulamento do IOF (Decreto 6.306/2007). Sobre os R$ 5.027,90 desta quarta, isso representa cerca de R$ 19. As contas desta reportagem não incluem as tarifas e a margem de câmbio de cada banco ou empresa de remessa, que alteram o valor final recebido.
O que observar até domingo
O segundo turno acontece no domingo (25). Até lá, o câmbio segue "sensível ao noticiário eleitoral", nas palavras de Kayo, da Nomad. Para Marques, da Hedgepoint, a volatilidade implícita sugere oscilações mais fortes da moeda depois que o resultado for conhecido.
Para quem precisa mandar dinheiro nos próximos dias, a dica prática é comparar a cotação e as tarifas de mais de uma empresa no momento do envio, já que a taxa muda ao longo do pregão. Se o pagamento for feito em dinheiro, money order ou cashier's check, confira no recibo a cobrança do imposto federal de 1%.
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